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O fim do mundo não aconteceu, mas e o fim da história?

Ainda não foi desta vez que o fim do mundo aconteceu. Apocalipse por apocalipse e o “fim da história” de Fukuyama? Após mais estas diversas quedas e crises de regimes monocráticos no Oriente Médio e o aprofundamento do “socialismo de mercado” da China seria enfim a vitória absoluta da democracia liberal?

Como a China está se movimentando nesse cenário?
Os chineses estão usando a crise econômica global de maneira estratégica, promovendo investimentos em várias partes do mundo. Eles estão aumentando seu peso político. Também pressionam por mudanças nas instituições multilaterais para que o papel deles seja mais relevante. Acho que os chineses sairão da crise com mais poder de barganha do que tinham antes.

Fukuyama publicou, ainda como artigo, sua tese em 1989 ao observar atentamente a abertura econômica e política da URSS, a Perestroika. A matriz teórica dialética de Hegel fora ilustrada pela polarização socialismo x capitalismo em tempos de Guerra Fria. Tese, antítese e síntese renovando o materialismo histórico estaria por fim junto com o socialismo e o triunfo do modelo ocidental de liberalismo democrático. A cada regime monocrático que cai, mais alto sobe a bandeira deste modelo em curso, mais o mundo se engaja na “administração das coisas” de Engles, não na fase pós-socialista idealizada onde não haveria a exploração dos homens e o domínio da política sobre os homens, mas no triunfo inquestionável (na unabashed victory) do liberalismo.
Antes mesmo da queda do Muro de Berlim Fukuyama já decretara o “Fim da História” que está cada vez mais longe das possibilidades de épanouissement individuel. Afora o determinismo esquemático hengeliano, sem sobras de dúvidas que o mundo não depende apenas de uma antítese para ser aperfeiçoado, e que é de se comemorar alguns regimes monocráticos orientais que caem. A Primavera Árabe é exatamente o desmantelamento do que restou “não liberal democrático”, de forma aglomerada. Crises na Argélia, Líbano, Marrocos, Kuwait, Iraque, Mauritânia, Jordânia, Arábia Saudita, Sìria, Omã, Bahrein, Djibuti, Sudão e grandes revoluções no Egito, Líbia, Iêmen Tunísia.
Como toda tese determinista, há suas falhas e exceções. O próprio Fukuyama hoje, após tantas crises provocadas pela autonomia e falta regulação pelo Estado do sistema financeiro, critica severamente o atual liberalismo americano e a dinastia do sistema financeiro sobre o Estado. Defende até mesmo um misto de regime comunista e liberalismo democrático, o que no final das contas seria a síntese até o suposto ponto final da história. Mas esta teoria nova de Fukuyama fora ajustada a partir da análise de conjuntura do Brasil: 2004, em plena implantação da nova política econômica do governo Lula; e 2009, em plena crise do sistema financeiro internacional.

Revista Veja (novembro de 2004)
Veja – O partido do presidente Lula acha que o Estado precisa ter presença marcante na economia. O governo anterior, de Fernando Henrique Cardoso, defendia um Estado mais regulador que intervencionista. Qual visão é a mais correta em sua opinião?
Fukuyama – Meu instinto manda preferir a fórmula do ex-presidente Fernando Henrique. Compreendo que o que move Lula e o PT são as enormes desigualdades sociais existentes no Brasil, um dos países economicamente mais injustos do mundo. Na busca por soluções para esse problema, surge a tentação de voltar a um modelo antigo de Estado de bem-estar social, a um Estado que possa controlar todas as decisões macroeconômicas.

Revista Veja (abril de 2009)
O que o capitalismo e a democracia liberal precisam fazer para sobreviver à atual crise?
Precisamos, urgentemente, de maior controle sobre o sistema financeiro, que está completamente desregulamentado. Acredito, também, que o estado mínimo não funcionou. A partir de agora veremos uma presença bem maior do estado na economia. Ou seja: será uma economia mais de estado e menos de mercado.

Sobre Juliano Sebastian

Consultor político, graduado em Comunicação Social e pós-graduado em História e Ciências Sociais. Gosto muito de samba, NFL, futebol, tecnologia e artes.