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Causos políticos – A voz irada da “gentalha”

RIO – O pai, africano, foi brigar na Indochina como soldado francês. Acabou a guerra, voltou, o filho nasceu em Paris e era motorista de táxi. Um cidadão francês negro. Tinha pavor de Nicolas Sarkozy, o candidato da direita à presidência da França, nas eleições de maio de 2007:

– Sou um cidadão francês igual a ele. Sou filho de pai africano e mãe francesa. Ele é filho de pai húngaro e mãe grega judia. Mas, se ele pudesse, eu seria expulso da França como “imigrante”. Só porque sou negro. Ele é um racista. Tem horror de negro, de árabe, de muçulmano, de latino-americano. Se for presidente, primeiro vai querer proibir novos imigrantes de entrarem aqui. Depois, vai querer mandar embora os que já estão aqui.

 “BANLIEUS”

Sabendo que éramos brasileiros, pôs uma musica de Gal Costa (“em homenagem ao Brasil”) e continuou seu discurso:

-A direita aqui sempre foi maior do que a esquerda. Mitterrand ganhou em 81 e 88 porque a direita se dividiu. Unida, ela ganha. Mas a direita que nós chamamos de “civilizada”, como De Gaulle, Pompidou, Giscard, Chirac, não mete medo ao povo. Esse Sarkozy, não. É um herdeiro político disfarçado do racista Le Pen. O senhor vai ver. Se ganhar,vai querer repetir o que fez em 2OO5  e os imigrantes vão se revoltar e tocar fogo.

-E foi ele mesmo quem fez?

-A culpa foi dele, porque era o ministro do Interior e mandava na polícia, que chegava nos bairros negros e árabes prendendo e batendo nos jovens. Os dois meninos de 15 anos não estavam fazendo nada, apenas correram com medo da polícia e foram eletrocutados em uma cerca elétrica da estrada de ferro. A reação popular veio na hora, queimaram milhares de carros. Ele, ministro, foi lá e, em vez de acalmar, chamou o povo de “gentalha”, “escória”. E disse a uma mulher, que estava na janela com medo:

-Fique tranquila, vamos fazer o “kocher” neles. (O que fazem alguns açougues: cortam a carótida, a jugular, para o sangue escorrer).

SARKOZY

Como em todas as eleições presidenciais da França, desde 1959 (e 1969, 1974, 1981, 1988), eu estava lá para ver  e escrever. Naquele maio de 2007  havia um surpreendente interesse pelas eleições, sem igual nos últimos 50 anos. O segundo turno seria entre Sarkozy da centro direita e Ségolène Royal do PS (Partido Socialista), apoiada por toda a esquerda.

Grande parte desse calor eleitoral vinha dos subúrbios, das periferias desempregadas, onde milhões de filhos de imigrantes não conseguiam trabalho, perambulavam pelos bares e estações do metrô.

Os filhos de africanos, árabes, turcos, latino-americanos, com a morte dos dois jovens amigos,se rebelaram, montaram barricadas nos “banlieues” (subúrbios),  queimaram milhares de automóveis e ouviram o ministro do interior, Nicolas Sarkozy, chamá-los de “gentalha”, “escória”,  e dizer que os subúrbios precisavam “ser lavados com jatos d’água”.

DUAS FRANÇAS

Na esquina, o árabe das frutas sorriu desconfiado quando lhe perguntei em quem ia votar. Hesitou, depois abriu o jogo:

-Ségolène, claro. Ela nos defende.

No restaurante Lipp, dos jornalistas, intelectuais ou turistas vadios, bem no coração do Saint Germain, os maitres, garçons, todos, brancos, franceses, começaram falando baixo, daí a pouco era quase um comício:

-Sarkozy! Se continuar essa invasão de imigrantes, não vai haver mais emprego  para nós que somos franceses. Eles trabalham mais barato.

“Eles” eram a “gentalha” de Sarkozy  que  era  preciso “lavar com jato de água”. Ganhou Sarkozy. Na reeleição, perdeu para Hollande, do PS.

O jornalista e escritor Sebastião Nery é baiano, pai de três filhos e conta décadas de histórias de bastidores da política brasileira. Confira mais sobre Sebastião Nery em: www.sebastiaonery.com.br

Sobre Juliano Sebastian

Consultor político, graduado em Comunicação Social e pós-graduado em História e Ciências Sociais. Gosto muito de samba, NFL, futebol, tecnologia e artes.