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Ação coletiva

A noção de ação coletiva não se refere, nesta teorização, a ações não estruturadas, que não obedecem alguma lógica de racionalidade, como os tumultos públicos espontâneos, por exemplo. Ela envolve uma estrutura articulada de relações sociais, circuitos de interação e influência, escolhas entre formas alternativas de comportamento. Os movimentos sociais seriam uma das possibilidades dessas ações.

Portanto, segundo Melucci, o movimento social, enquanto categoria analítica, é reservado ao tipo de ação coletiva que:

  1. Envolve solidariedade;
  2. Manifesta um conflito;
  3. Excede os limites de compatibilidade do sistema em relação à ação em pauta.

O autor acrescenta que nas sociedades contemporâneas e da informação, devido ao grau de autorreflexividade dos sujeitos e das organizações, há uma maior circulação de indivíduos, de ideias e circuitos de solidariedade interorganizacional, flexibilizando os modelos organizacionais tradicionais, dando origem a ações sob a forma de redes sociais e coletivas.

A partir desse pressuposto, considero que, para se compreender a complexidade de formas de interação em rede, é necessário se distinguir conceitualmente três níveis de relações: redes sociais, coletivos em rede e rede de movimentos sociais, as quais empiricamente interagem e se complementam, mas enquanto categorias analíticas devem ser diferenciadas.

Redes Sociais

Redes sociais, no sentido amplo, refere-se a uma comunidade de sentido, na qual os atores ou agentes sociais são considerados como os nós da rede, ligados entre si pelos laços dela, que se referem a tipos de interação com certa continuidade ou estruturação, tais como relações ou laços que se estruturam em torno de afinidades/identificações entre os membros ou objetivos comuns em torno de uma causa. Exemplos desses agrupamentos ou comunidades são as redes de parentesco, redes de amizade, redes comunitárias variadas (religiosas, recreativas, associativismo civil, etc.), contendo ou não uma organização formal.

Já quando nos referimos às redes organizacionais de mobilização da sociedade civil ou redes propositivas de políticas sociais ou públicas, deve-se fazer a distinção entre coletivos em rede e rede de movimentos sociais:

Coletivos em rede

Coletivos em rede refere-se a conexões entre organizações empiricamente localizáveis. Como exemplo, temos as articulações entre ONGs de um mesmo eixo temático, como educação popular, direitos humanos, questões de gênero, e outras, compondo os fóruns setoriais ou intersetoriais da sociedade civil e outras articulações em defesa da cidadania. Esses coletivos podem vir a ser segmentos (nós) de uma rede mais ampla de movimentos sociais, que se caracteriza por ser uma rede de redes.

Por exemplo, podemos citar como campos políticos ou sub-redes do movimento ambientalista brasileiro diversos coletivos em rede, como o Fórum Brasileiro ds ONGs e Movimentos Sociais para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento; a Rede de ONGs da Mata Atlântica; o Grupo de Trabalho Amazônico – GTA; a Rede Cerrado. Entretanto, o movimento social, no caso o movimento ambientalista, deve ser definido como algo que vai além de uma mera conexão de coletivos.

Rede de movimento social

Refere-se à articulação entre vários atores ou organizações que participam dos níveis organizacionais acima. Esta pressupõe a identificação de sujeitos coletivos em torno de valores, objetivos ou projetos em comum, os quais definem os atores ou situações sistêmicas antagônicas que devem ser combatidas e transformadas. Em outras palavras, o movimento social, definido enquanto uma rede de caráter político, pressupõe a construção de uma “identidade” coletiva ou “identificação grupal”, a definição de “adversários” ou “opositores” e um “projeto” ou “utopia”, num contínuo processo de formação política, resultante das interações das múltiplas articulações acima mencionadas. Esse tende a ser o nível mais complexo, mais politizado e orientado por um desejo de transformação do status quo de grupos sociais que se consideram em situação de exclusão, desigualdade ou discriminação, ou mesmo que lutam por mudanças sistêmicas mais amplas. A ideia de rede de movimento social é, portanto, um conceito de referência que busca apreender o porvir ou o rumo das ações de movimento, transcendendo, portanto, as experiências empíricas, concretas, datadas, localizadas dos sujeitos/atores coletivos, conforme representado na figura abaixo. O movimento propriamente dito resulta, portanto, da dinâmica articulatória entre diversos atores da sociedade civil em nome de um projeto ou utopia de mudança social.

Fragmentos do texto: Das ações coletivas às redes de movimentos sociais de Ilse Scherer-Warren.

Sobre Juliano Sebastian

Consultor político, graduado em Comunicação Social e pós-graduado em História e Ciências Sociais. Gosto muito de samba, NFL, futebol, tecnologia e artes.